Acabo de receber o texto abaixo do queridíssimo amigo Ismael Bernardo. Creio que temos muito mais questões do que supõe a nossa vã filosofia. Um pequeno deleite.
O que sou, um ator?
O que vou representar? O que fazer? Será que vou dançar, cantar ou poesia num recital declamar? Como sair do camarim, assim, e até ao ávido público chegar? Terei elegância, vou sem tropeçar, com segurança, terei porte no andar? Que máscara usar? Que roupa, o cenário, meu Deus qual será? Deixo a cara limpa ou me escondo atrás das tintas? Cadê as luzes, as cortinas, as purpurinas, o vinho fino e as frutas doces no agdá? Que personagem encarnar? Serei um príncipe banto, um santo profano ou um ermitão em prantos? O público vai aplaudir ou todos irão gargalhar? Que horas entrar, sair de cena, que tema abordar? A dor, o prazer, que momento celebrar? O que aprender, o que ensinar, o que ouvir o que falar? Que lágrimas derramar, porque sorrir, porque chorar? Será que terei coragem? E se eu pestanejar, esquecer o texto, inventar um pretexto, perder o contexto e o roteiro ultrapassar? Serei valente, covarde, arrogante, humilde, me calo ou fico louco a gritar? Saiam todos, venham todos, em nome do Senhor, venham ver, aqui estou, Eu, um ator, no escuro dessa alucinação, encenando morte, vida e ressurreição.
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De Bernardo Alves de Souza, poeta português que viveu no século 18, para a poetisa Márcia Tude, que vive no século 21.
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